OS HOLANDESES NO BRASIL
Pernambuco antes de MaurÍcio de Nassau

Raul Mendes Silva

Em 1580 Dom Sebastião, rei de Portugal, faleceu sem deixar descendentes, abrindo o caminho para que, em toda a Península Ibérica, pelas leis vigentes na monarquia, o poder passasse ao soberano da Espanha. A regra valia também para as colônias lusitanas e por isso o Brasil ficou temporariamente sob o domínio da coroa espanhola.
Pela sua enorme extensão e pelas riquezas naturais, o território brasileiro era objeto da cobiça de nações europeias, entre as quais a Holanda, então uma potência comercial e militar muito poderosa.  O objetivo imediato dos holandeses era o comércio do açúcar, dentro de um cenário de hostilidades com a Espanha e, consequentemente, com Portugal.

No século 17 a Holanda vivia em regime de liberdade política, com progresso social e  tolerância religiosa, sem sofrer o atraso que perdurava em outras regiões da Europa. A sua economia, baseada principalmente no comércio, recebia os benefícios de um capitalismo comandado por uma burguesia local empreendedora. Era um sistema que, na época, podia ser considerado como moderno.

O Brasil sentia ausência de autoridade, porque o próprio Portugal estava sendo governado por um rei espanhol desde 1580, situação que só mudou em 1640, quando os portugueses reconquistaram o poder.

Uma das empresas comerciais de maior importância na Europa era a Companhia das Indias Ocidentais, que tinha ramificações em vários países do continente. Funcionava como uma organização transnacional dos dias atuais, inclusive protagonizando o comércio entre o Oriente e o Ocidente.

A imponente sede da Companhia das Indias em Amsterdã, gravura da época
A imponente sede da Companhia das Indias em Amsterdã, gravura da época

Em 9 de maio de 1624 os holandeses, usando a  sua marinha de guerra e cerca de 2.000 soldados, invadiram Salvador, que capitulou perante a superioridade dos atacantes. O Governador-Geral, Diogo de Mendonça, foi capturado e mandado para a Holanda. Com a cidade invadida, o bispo da Bahia, Dom Marcos Teixeira, assumiu o comando das tropas em retirada e iniciou investidas contra os invasores, que tiveram que permanecer confinados na capital baiana. Passado menos de um ano, em 30 de abril de 1625, uma armada luso-espanhola de grande poder de fogo cercou Salvador e inverteu a situação, expulsando os neerlandeses.

Três anos depois, navios holandeses assaltaram um comboio de embarcações espanholas que transportavam um carregamento de prata, apossando-se daquela imensa fortuna, o que lhes permitiu financiar nova investida nas costas brasileiras, desta vez na região de Olinda, na Praia de Pau Amarelo, mais vulnerável que Salvador. O governador Matias de Albuquerque, sem outra saída, mandou queimar todo o açúcar que estava no porto e a população teve que debandar para o interior.

As tropas luso-brasileiras conseguiram reagrupar-se e construir uma fortificação improvisada no Arraial do Bom Jesus, onde se defenderam durante alguns anos. Porém, cercados e sob ataque constante dos holandeses, tiveram que abandonar o local. Após mais investidas pela Paraíba, finalmente os invasores puderam dominar a região, apesar das guerrilhas luso-brasileiras, comandadas pelo Conde Bagnoldo.

Depois de onze anos de combates entre as forças holandesas e os luso-brasileiros, finalmente em 7 de junho de 1635 os primeiros lograram ocupar Arraial do Bom Jesus, vencendo as tropas do  Governador-Geral Matias de Albuquerque, e instalando-se em Pernambuco como vencedores. Começava então um período que durou 24 anos.

***

Entre 1623 e 1646 a Companhia das Indias holandesa, nas rotas das Américas e da África,  capturou no Atlântico cerca de 550 embarcações hispano-portuguesas, pilhando mercadorias e escravos no valor de 6.710 florins. A importância total dos apresamentos no Brasil ultrapassou 30 milhões de florins. Como se vê, além da exploração da cana-de-açúcar, a pirataria imposta pela força da marinha neerlandesa era um gigantesco negócio. Mas havia o lado das despesas com pessoal, armamentos e munições, deslocações e instalações, que fragilizavam esse gigante comercial e militar. Como isto não bastasse, a lógica capitalista impunha à Companhia (que era dirigida por um “Conselho dos 19”) a distribuição de dividendos entre seus acionistas. Para cobrir as dívidas, frequentemente a empresa recorria a aumentos de capital, captados sob a forma de empréstimos dos próprios acionistas, em torno de 6% ao ano, o que se revelou desastroso.

Processamento do açúcar, gravura da época
Processamento do açúcar, gravura da época

Ao contrário dos colonialistas portugueses, que viam no Brasil uma extensão de seu próprio território da metrópole, os holandeses consideravam a colônia como um empreendimento simplesmente comercial.

Mesmo assim, para os neerlandeses, o caminho natural foi complementar e substituir o comércio da pirataria pela exploração de mercadorias produzidas na colônia brasileira. Porém, no caso da capitania de Pernambuco, o ambiente ficava cada vez mais difícil, devido às incursões hostis por parte dos luso-brasileiros, dos negros e dos próprios índios. O nome de Nova Holanda já se tinha firmado, mas tornava-se necessário criar um sistema de governo com instrumentos militares e civis, capaz de cimentar a fraca construção instalada. Enfim, a colônia precisava de um governador (Statthalter) com visão estratégica de estadista, não um cabo de guerra, por mais competente que fosse.

A ÉPOCA DE JOÃO MAURÍCIO DE NASSAU

Os Estados Gerais holandeses, com a concordância do próprio Frederico Henrique de Nassau, príncipe de Orange (1584-1647) ofereceram o posto ao Conde alemão João Maurício de Nassau (1604-1679), o que se revelou uma escolha acertada.  Este último aliava à sua educação nas universidades de Basiléia e Genebra a experiência de militar, com passagem por algumas batalhas. Felizmente para a história da pintura no Brasil, ele admirava e cultivava as artes.

Maurício de Nassau, em cópia da tela de Nason (esta cópia pertence ao Museu Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro)
Maurício de Nassau, em cópia da tela de
Nason (esta cópia pertence ao Museu
Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro)

O Conselho dos 19 atribuiu-lhe uma verba de 6 mil florins para se instalar em Pernambuco, um salário mensal de 1500 florins, mais 2% sobre os bens tomados aos inimigos, cifras de fazer inveja a qualquer “Ceo” de hoje.

Em princípio, o novo governador teria à sua disposição 32 embarcações e sete a oito mil soldados, porém as despesas pareceram depois exageradas ao Conselho dos 19, que acabou enviando para o Brasil somente 12 navios e 2.700 militares. Contudo, permaneciam as indecisões e receios de perda de dinheiro por parte dos acionistas, o que levou Maurício a partir em 25 de outubro de 1636 apenas com 4 navios, chegando ao Recife em 23 de janeiro de 1637.

O Conde assumiu o poder de toda a administração interna, que acumulava com as funções de comandante das forças terrestres e marítimas. Como viajante, ficou deslumbrado com a beleza das paisagens, mas suas tarefas imediatas seriam estabelecer boas relações com os índios e negros, além de resolver os conflitos com os luso-brasileiros, de maneira a aproveitar as potencialidades econômicas da colônia. As lutas que incendiavam a região teriam que cessar, construindo-se barreiras militares, principalmente na zona de Porto Calvo, onde continuavam se agrupando bandos armados de portugueses e nativos.

Seus esforços revelaram-se insuficientes e os holandeses tiveram que parar com os ataques, deixando muitas armas e munições em poder dos adversários, prosseguindo o clima de beligerância. Em cada escaramuça, as tropas de Nassau perseguiam os guerrilheiros – estes, naturalmente, conheciam melhor as montanhas e florestas e logravam quase sempre escapar.  Os rigores do sol, a falta de água potável e a inevitável disenteria, igualmente castigavam as tropas regulares holandesas, dizimando suas forças. Apesar das missivas do governador, a cúpula da Companhia das Indias parecia inflexível em não aceitar mais gastos porque, para a empresa, a colônia era um investimento a curto prazo, não uma aposta histórica.

Tais limitações repercutiam no frágil tecido social, registrando-se arruaças, desordens, roubos e homicídios. A disciplina férrea, que funcionava nos exércitos europeus, tornava-se de execução difícil nas hostes tropicais, já que entre seus comandantes e oficiais se albergavam  muitos fora-da-lei e funcionários despreparados.

Maurício de Nassau encontrou esta situação calamitosa, que tratou de sanear com pulso de ferro, mandando executar penas de morte pendentes, obrigando a cidade a seguir regras de limpeza e montando uma eficiente rede social de saúde, no que foi auxiliado por seu médico particular, Willem Piso. Seguindo o modelo da metrópole, providenciou asilos para mendigos e órfãos.

Os católicos e judeus queixavam-se das descriminações a que eram submetidos pela religião do poder, o calvinismo. O governador impôs a liberdade de culto e proibiu as perseguições por motivo confessional, mesmo com a relutância dos calvinistas. Dado que a maioria dos holandeses era constituída por homens, muitos deles tinham assumido relações de concubinato com mulheres de origem portuguesa, negra ou índia. Maurício determinou que as leis de seu país fossem aplicadas aos regimes de casamento, mesmo nos casos multirraciais.

De fato, outra grande diferença cultural entre os luso-brasileiros e os holandeses relacionava-se com as orientações religiosas. Enquanto os primeiros estavam ligados à fé católica, naqueles tempos agitada pela Reforma, os invasores seguiam o Calvinismo (protestante). Curiosamente, os holandeses mantinham sua austeridade social e administrativa junto com a licenciosidade das bebidas. O Calvinismo tinha sido introduzido no Brasil no século 16, quando da chegada dos franceses ao Rio de Janeiro, e prolongou-se pelo século seguinte durante toda a estadia dos holandeses, inclusive ao longo do período de Maurício de Nassau. Paralelamente à catequese católica, os calvinistas dispunham de locais para o ensino e a prática religiosas. Entretanto, ao contrário do que acontecia em outras partes da Colônia – dominadas pelo Catolicismo - o ambiente em Pernambuco holandês caracterizava-se fundamentalmente pela liberdade de cultos e respeito pela diversidade de orientações da fé de cada segmento da população, apesar das reclamações de católicos e judeus.

No caso de estoques de alimentos, vindos da metrópole ou produzidos localmente, recorreu-se a métodos racionais e armazenamento, combatendo-se a corrupção, saneando-se um dos principais problemas da colônia.

O Conde organizou quatro milícias civis para proteger a cidade. Convencido da impossibilidade de obter mais recursos da metrópole, passou a confiscar e vender engenhos e terras ociosas, conseguindo obter dois milhões de florins para financiar a colônia. Os fugitivos, com garantias de que não haveria retaliações, começaram a voltar, gozando das mesmas prerrogativas dos holandeses. O tecido social começou a recompor-se.

Nassau era um aristocrata rico e de gosto requintado. Conhecia e correspondia-se com ilustres personalidades europeias. Incomodado com suas precárias instalações provisórias, mandou construir um palácio para morar, Vrijburg (Friburgo) que, à maneira de seus congêneres europeus, ocupava dezenas de serviçais. Outro palácio, o Boa Vista, destinava-se a abrigar os poderes públicos. Quando a Companhia das Índias não dispunha de verbas, ele pagava as despesas do próprio bolso.

Foi também em Pernambuco, sob domínio holandês, que se firmou uma parte importante da cultura israelita. Numerosos judeus ibéricos (sefaraditas) tinham saído da Espanha e de Portugal em busca de refúgio na Holanda, onde havia tolerância religiosa. A partir daí, numerosos deles optaram por vir para o Brasil, fugindo às perseguições que sofriam na Europa. Existem registros de que, em 1636, uma sinagoga estava sendo erguida no Recife. Curiosamente, foi desta cidade que partiram os judeus que fundaram a primeira colônia israelita da América do Norte.

Recife e seus arredores eram então pouco mais que um aglomerado de ruas, com um reduzido perímetro urbano. Entretanto, a administração de Nassau já em 1637 utilizava um sistema que favorecia a governabilidade. Dispunha de um tipo de administração compartilhada, a Câmara de Escabinos, ou seja, representantes públicos que corresponderiam hoje a um ágil tribunal de primeira instância, além de constituírem uma espécie de vereadores locais.

Foram também criados hospitais, assessorias técnicas junto de cada aldeia de nativos e instituições de assistência, como uma Curadoria de Órfãos. Além disso, os holandeses manifestavam preocupações urbanísticas. Sendo o burgo limitado e apertado era, porém, muito cosmopolita, ali se acotovelavam e conviviam negros, índios, brasileiros de origem europeia, portugueses, judeus, holandeses, franceses e alemães.

Todavia, as deficiências nos serviços, que atualmente denominamos saneamento básico, não conseguiam evitar doenças, que se propagavam como epidemias, que eram o escorbuto e a gonorreia, havendo também proliferação de bordeis, abominados pelas comunidades religiosas locais.

Mas existia a preocupação com serviços públicos, como os bombeiros para a prevenção dos incêndios frequentes, e os encarregados da coleta de lixo. O porto de Recife era objeto de cuidados especiais e sua limpeza obrigatória. Quanto aos animais domésticos, não podiam ser deixados soltos, sob pena de pesadas multas. Era uma tentativa, inédita no Brasil, de viver em ambiente urbano e razoavelmente civilizado.

Entretanto, os holandeses dependiam quase totalmente dos suprimentos da metrópole e não se empenhavam em uma estratégia competente e eficaz, de longo prazo, para a ocupação do território, ao contrário do que faziam os colonos portugueses vindos para o Brasil. Para os holandeses, a dificuldade em se estabelecer e dominar as zonas rurais lhes seria fatal para o projeto de implantação de uma colônia estável e autossuficiente.

Um choque cultural entre os holandeses e os luso-brasileiros deu-se por conta dos hábitos do desmedido consumo de cerveja e destilados entre os primeiros. É conhecido que o vinho, há muitos séculos, faz parte da dieta dos povos mediterrâneos e ibéricos. O imperador romano Júlio César (100 AC- 44 AC), em seus escritos sobre as guerras gaulesas, deu conta da diferença das preferências alcoólicas entre os “bárbaros” germânicos (Alemanha) e as tropas gaulesas e romanas (França, Itália). Estas bebiam vinho e se envolviam em sexo com as mulheres disponíveis, mesmo na véspera das batalhas, enquanto os germânicos consumiam imensas quantidades de cerveja e destilados, associando este comportamento a festanças guerreiras, em que glorificavam os seus deuses pagãos. A explicação mais imediata para esta diferença baseia-se nos climas dessas regiões mas, além disso, há traços culturais profundos que a justificam. Os europeus do norte se caracterizam pela sua austeridade e a bebedeira funciona como válvula de escape das pressões e responsabilidades. Não por acaso, foi na Holanda e na Europa do Norte que se popularizaram destilados como o brandy, a vodka e o gin.

Os holandeses que chegaram a Pernambuco trouxeram com eles essa paixão etílica e bebiam desenfreadamente, tanto ricos como pobres, deixando boquiabertos os luso-brasileiros habituados à rigidez dos preceitos católicos.

Havia escassez de mão-de-obra negra, provocada pela diáspora dos escravos, com fugas para o sul, aprisionamentos por parte dos portugueses ou, simplesmente, porque eles desapareciam na selva, onde se organizavam e realizavam incursões armadas para obter mantimentos. Para ultrapassar o impasse, em julho de 1637 Maurício enviou uma expedição à Guiné e, com uma operação militar, conseguiu capturar numerosos escravos, trabalhadores indispensáveis na produção do açúcar. Sob o ponto de vista da economia, os efeitos benéficos começaram a se refletir imediatamente na sociedade local.

Nesse mesmo ano, Maurício logrou conquistar Fortaleza, mas as perspectivas de exploração agrícola não se revelaram favoráveis naquela região, apesar dos índios locais desejarem que os holandeses os livrassem do jugo lusitano.

Zacharias Wagener, mercado de escravos no Recife
Zacharias Wagener, mercado de escravos no Recife

O escritor Gilberto Freyre
O escritor Gilberto Freyre

Mais tarde, o escritor pernambucano Gilberto Freyre comentou“... O certo é que o primeiro gosto de governo democrático e largamente representativo, experimentaram-no os brasileiros durante o domínio holandês e sob a administração de um príncipe alemão da casa de Nassau, João Maurício. Foi também Nassau quem se esmerou em criar no Brasil holandês um ambiente de tolerância religiosa escandalosamente novo para a América portuguesa, e irritante para os próprios calvinistas do seu séquito. Nassau foi quem primeiro cuidou sistematicamente de libertar a economia da área brasileira produtora de açúcar, da monocultura, para desenvolver entre nós a policultura”.

Para a colônia, Nassau era um homem além de seu tempo, voltado para o meio ambiente (embora nessa altura ainda não se falasse em ecologia). Com uma tecnologia incomum para a época, conseguiu transportar e transplantar com sucesso centenas de árvores frutíferas e palmeiras de grande porte, com o intuito de embelezar o ambiente e proporcionar sombra em locais públicos.

Devemos lembrar que, ao longo daqueles anos, houve incursões militares de parte a parte e em diversas direções, tanto no Nordeste como no atual Espírito Santo. Maurício pode ampliar os domínios até ao Maranhão e ao Rio São Francisco. Apesar da insistência da metrópole, o governador resistia a atacar Salvador, receando não dispor de efetivos suficientes. Entretanto, as contínuas tensões e o clima tropical debilitaram a saúde dele a ponto de, a partir de  dezembro de 1637, ter ficado três meses de cama, prostrado e com febre.

Todavia, os holandeses da metrópole não tinham desistido de Salvador e, animados com as notícias das cisões entre Portugal e Espanha, em 1638 mandaram cerca de 4 mil soldados, entre eles mil indígenas, para atacar a capital baiana. Tudo indica que a sua espionagem havia fornecido informações não fidedignas, porque a resistência dos baianos foi surpreendentemente poderosa. Conseguiram dominar as cercanias, mas não a cidade, que se encontrava mais fortificada do que imaginavam. No comando dos sitiados estava o Conde Bagnoldo, inimigo velho conhecido dos neerlandeses. 

A derrota de Maurício foi acompanhada de perdas significativas por parte de portugueses e espanhóis, mas o governador holandês teve que reconhecer a situação e voltar com as tropas para Pernambuco. Apesar de todas as justificativas, perante Amsterdã o governador havia perdido prestígio. A Companhia das Indias havia enviado ao Brasil o coronel polonês Christovão Artichofsky, que passara a dividir poderes com Maurício, para indignação deste. Ciúmes, invejas, intrigas e outros frutos das cortes palacianas minaram a fragilizada autoridade do governador, que apesar disso conseguiu mandar de volta o polonês - que nunca mais pisou solo brasileiro.

Porém, Nassau se encontrava desiludido com a metrópole e as contínuas intrigas. Em 9 de maio de 1940 apresentou às autoridades holandesas seu pedido de demissão, que lhe foi recusada. No final deste ano, em 1º de dezembro, os portugueses conseguiram, após 60 anos de submissão, livrar-se do domínio espanhol, colocando no trono de Lisboa o Duque de Bragança, como Rei dom João IV. As colônias lusitanas seguiram esse exemplo e o novo monarca tratou-se de aliar-se aos holandeses contra os espanhóis. Em 14 de março de 1641 chegou ao Recife uma carta do novo vice-rei português em Salvador, endereçada a Maurício de Nassau, propondo um armistício. A proposta foi recebida entusiasticamente pelos holandeses.

Zacharias Wagener, Engenho Massaipe, Pernambuco, cerca de 1634
Zacharias Wagener, Engenho Massaipe, Pernambuco, cerca de 1634

Frans Post, Engenho de açúcar, 1668
Frans Post, Engenho de açúcar, 1668

Em 1641 verificou-se um breve período de calma aparente, entre os holandeses do Recife e os luso-brasileiros que dominavam o interior e viviam ocupados com a produção nos engenhos-de-açúcar. A verdade é que a situação continuava tensa na região, havendo escaramuças frequentes, que prenunciavam confrontos mais violentos. Analisando erroneamente as circunstâncias, os holandeses da metrópole negociaram a volta de Nassau para a Europa. Em maio de 1694, ele deixou o Recife e voltou à Holanda, deixando em seu lugar uma junta de cidadãos holandeses e a cidade sem liderança.

A situação não parou de se deteriorar; as desavenças continuaram e, para piorar, os preços do açúcar despencavam no mercado internacional. Após muitas escaramuças e duas batalhas (que aconteceram em Guararapes, em 1648 e 1649) que foram amplamente favoráveis aos luso-brasileiros, em 1654 os holandeses se renderam.

***

Para celebrar as vitórias sobre os holandeses e as incluir como episódio estruturante na história do Brasil, o Império encomendou ao artista catarinense Victor Meireles uma grande tela, para simbolizar aqueles momentos. O pintor sintetizou as duas batalhas em um só quadro.

Victor Meireles, A Batalha dos Guararapes, óleo sobre tela, 500 x 925 cm, 1875-79, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.
Victor Meireles, A Batalha dos Guararapes, óleo sobre tela, 500 x 925 cm,
1875-79, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

Antônio Felipe Camarão, detalhe da tela de Meireles.
Antônio Felipe Camarão, detalhe da
tela de Meireles.

Os fatos relacionados com a ocupação holandesa não eram, então, tão claros como hoje. Meireles viajou ao Recife e Olinda, onde estudou locais, documentos e pessoas, regressando três meses  depois ao Rio de Janeiro, munido de apontamentos e desenhos. A obra lhe tomaria seis anos, acabando por ser mostrada na Exposição Geral de Belas Artes, junto com a Batalha do Avaí, de Pedro Américo (ambas podem ser vistas hoje lado a lado, no Museu Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro).

Apesar da monumentalidade da obra, de seu excelente desenho, colorido e execução, a crítica não foi unânime, acusando-a de fria e convencional, o que levou Meireles a responder que se tratava (à maneira neoclássica) de simbolizar um acontecimento bélico, heroico - e não de realizar uma tela naturalista. De fato, ao mesmo tempo em que desejou glorificar os luso-brasileiros, nem por isso desmereceu o valor dos adversários, que lutaram nas hostes holandesas. Ao centro, o artista colocou, com a espada em riste, André Vidal de Negreiros. No lado inferior direito pode ver-se Antônio Felipe Camarão, um lendário herói, brasileiro mestiço convertido ao Catolicismo, que foi incluído na tela de Meireles, como convinha à historiografia nacional.

***

Frontespício do livro de Caspar van Baerle
Frontespício do livro de Caspar van Baerle

O Príncipe de Nassau encomendou a redação de uma obra que documentaria a sua administração no período pernambucano. Assim, em 1647 foi publicado em Amsterdã o livro de Caspar van Baerle: Casparis Barlaei Rerum per Octennium in Brasília, importante obra documental, hoje raríssima. Inclui cinquenta e cinco gravuras de mapas e plantas, cenas da frota holandesa, vistas do litoral e paisagens, a maioria assinada por Frans Post. O British Museum de Londres conserva uma coleção de desenhos que serviram de base a numerosas  gravuras.

O biógrafo do Conde Maurício, Caspar van Baerle, escreveu : “...Quem disse que Nassau não administrou e governou com prudência o Brasil, compare o que se fez antes dele e o que aconteceu depois.”

Artistas holandeses que estiveram em Pernambuco durante a ocupação

Como vimos, a Holanda do século 17 tinha uma estrutura econômica baseada no comércio nacional e internacional, comandado pela rica burguesia da região. As artes sofreram os efeitos desta laicização do poder. Os artistas afastaram-se progressivamente dos temas religiosos que dominavam a pintura do Renascimento e passaram a executar retratos de senhores poderosos, cenas domésticas, flores e frutos. É nesta época que a natureza morta (um gênero da pintura) atinge sua maior expressão.

Frans Post (1612-80)
Frans Post

Na pintura holandesa desse século, esse tipo de pintura atingiu altos níveis de qualidade, e assumiu então seu status de gênero autônomo. Quer dizer, em obras de arte, anteriormente, o artista representava flores e frutos simplesmente como complementos dos quadros, não como o motivo principal. Para os artistas holandeses da época, flores e frutos passaram a ser um tema principal.

Curiosidade: quando Albert Eckout (1610?–65?) em Pernambuco, executou as suas naturezas-mortas, elas eram as primeiras pintadas em todo o Continente Americano.

***

Os mais notáveis foram Frans Post, irmão do arquiteto Pieter Post (há dúvidas sobre este também ter feito parte da comitiva); e Albert Eckout, a quem o Brasil ficou devendo obras de grande originalidade e importância documental. Entre 1630 e 1654 foram produzidas no Nordeste brasileiro pinturas de reconhecido mérito, inclusive no espaço internacional e que constituem preciosa documentação do seu patrimônio histórico natural, de sua gente, de suas pequenas cidades e conjuntos rurais, além do registro da fauna e flora, que apaixonaram os europeus.

Frans Post (1612-80)

Frans Post é o artista mais importante do grupo. Pintor oficial do Governo Holandês das Índias Ocidentais, desenvolveu no Brasil uma obra gráfica e pictórica filiada às tradições da pintura holandesa de paisagem. Para entender este tipo de trabalho, precisamos nos debruçar sobre a sua “construção”, que seguia alguns cânones estéticos: o pintor partia de uma perspectiva tomada a partir de um ponto abaixo do horizonte; no primeiro plano, aberto, enquadrava-se uma ampla planície; o esquema do desenho do quadro buscava uma diagonal, de preferência acentuada por rios ou caminhos que ligavam o primeiro plano ao plano do fundo; o horizonte situava-se aproximadamente a um terço da altura do quadro.

Para um pintor europeu de paisagens, a natureza de Pernambuco daquela época era um banquete visual, bem diferente dos cenários holandeses. Frans Post viveu em Recife entre 1637 e 1644, não lhe faltaram oportunidades para se embevecer com as cores e a topografia dos campos, para se encantar com os portos e as edificações militares, preocupações condizentes com as responsabilidades do seu cargo oficial.

Não conhecemos numerosas obras desta fase. Citaremos Vista de Itamaracá, Vista de Antonio Vaz e as quatro pinturas que Maurício de Nassau ofereceu ao poderoso Rei Luis XIV da França, que hoje constam do acervo do Museu do Louvre, em Paris; Rio São Francisco e mais: Forte Mauritius, Carro de Bois, Forte dos Reis Magos, Paisagem das Cercanias de Porto Calvo.

Nossa atenção volta-se para detalhes curiosos: Post utilizou a paleta de cores holandesa para representar as nossas cenas tropicais, mostrando um desenho sóbrio e simplificado, mantendo a luminosidade da atmosfera local. Enfim, foi o primeiro pintor que no Brasil registrou peculiaridades da nossa paisagem. Observando suas telas, constatamos uma rigidez um tanto geométrica, mas suavizada pelas saliências e detalhes que despertaram sua curiosidade.

Os trabalhos aqui realizados até 1644 apresentam uma espontaneidade que depois se perdeu na sua pintura, quando executou paisagens “brasileiras” já longe do local de origem. No Brasil, Post foi um artista que soube transpor sabiamente as regras de seus mestres europeus. Tinha diante dos olhos as vistas espetaculares e originais do nosso país, uma natureza desconhecida que lhe oferecia desafios diferentes dos modelos da sua terra. As pinturas que aqui executou seguiram fiel e tecnicamente as surpresas de um olhar artístico, sensível e preciso, impregnado de suave e equilibrado lirismo.

Tendo voltado à Europa, Post continuou a pintar paisagens brasileiras, usando modelos aqui desenhados. Os preços modestos que essas obras alcançaram na época, permitem-nos afirmar que seus compradores não as consideravam obras primas, porém manteve algum lugar de destaque entre os pintores do século 17. Os seus quadros deste período conservam os aspectos típicos e exóticos das obras anteriores, mas agora complementados com pormenores de fauna e flora desproporcionalmente ampliadas - e colocados em primeiro plano, o que evidencia uma preocupação comercial. A natureza aparece mais frondosa, o sertão ficando dissociado, mais longe do olhar do observador, e as construções ganham assim espaço para aparecer. Neste exotismo abundante, o autor não hesitou em acumular aspectos nem sempre coerentes. Para corresponder tecnicamente a esta fartura, a pintura tornou-se cada vez mais nítida, exagerando o preciosismo dos traços e a paisagem foi envolvida em uma atmosfera mais límpida.

São usados recursos técnicos, como a luz nas fachadas, iluminando-se os planos mais distantes e obscurecendo-se os mais próximos. Acentua-se o contraste entre as roupas brancas e a cor da pele dos negros. Mas, evidentemente, o frescor da emoção instantânea do quadro pintado ao vivo é mais rico espontâneo do que os recursos e requintes artificiais e o exagero de detalhamento que caracterizam esta fase de Post.

Entretanto cabe reconhecer que, em sua passagem pelo Brasil, ele criou um espaço novo e original na pintura brasileira, cabendo-lhe um grande mérito em ter documentado a paisagem nordestina do seu tempo. Críticos assinalam a sua estadia por aqui como responsável pela parte mais original de sua produção. Fora das obras pintadas no Recife, sua criatividade e originalidade anuviam-se, mas seja qual for a opinião das análises, o fato é que, nas últimas décadas do século 20, o preço internacional das obras de Frans Post alcançou valores expressivos nos leilões europeus e norte-americanos.

Sua produção foi muito reduzida - acredita-se que menos de 300 obras - e no Brasil certamente se contam poucas dezenas.

ALGUMAS OBRAS DE FRANS POST

F.Post, Vista de Itamaracá, 1637
F.Post, Vista de Itamaracá, 1637

F.Post, Vista da ilha Antonio Vaz, 1647
F.Post, Vista da ilha Antonio Vaz, 1647

F.Post, Rio São Francisco, 1635
F.Post, Rio São Francisco, 1635

F.Post, Forte Mauricius, 1647
F.Post, Forte Mauricius, 1647

F.Post, Carro de boi, Museu do Louvre, Paris, 1638
F.Post, Carro de boi, Museu do Louvre, Paris, 1638

F.Post, Forte dos Reis Magos, 1638
F.Post, Forte dos Reis Magos, 1638

F.Post, Cercanias de Porto Calvo, 1639
F.Post, Cercanias de Porto Calvo, 1639

Albert Eckhout (1610-65?)

Outro artista da comitiva e que para nós, afortunadamente, se apaixonou pelas gentes, a fauna e a flora do país, foi Albert Eckhout. Em 1636 participou da viagem de Nassau e permaneceu em Pernambuco até 1644, tendo entretanto visitado também a Bahia (1640) e o Chile (1642).

Sua comoção perante a opulência da natureza é evidente, o que se revela especialmente em seus tipos humanos e suas naturezas-mortas. Em 1654 o Conde de Nassau enviou para o Rei da Dinamarca, Frederico III, uma coleção de pinturas de Eckhout, da qual uma parte está no Museu de Copenhague. Além disto, baseando-se em apontamentos feitos no Brasil, já após ter regressado à Europa, o artista executou dezenas de painéis com espécies de aves brasileiras, devidamente identificadas, obras que permanecem no Castelo de Höfloessnitz, perto da cidade alemã Dresden.

Infelizmente, o resto de sua produção perdeu-se. Se lembrarmos quantos conflitos armados eclodiram e se prolongaram naquelas regiões europeias, poderemos imaginar que grande parte da obra deste artista ficou enterrada nos escombros dos bombardeios. Eckhout ficou esquecido e quase nem foi citado nos antigos registros de pintores (o imenso Dicionário Benezit lhe concede apenas três vagas linhas).

Somente no século 20 sua obra seria realmente avaliada e apreciada, quando se percebeu, finalmente, o valor artístico e original dos seus trabalhos, graças a pesquisadores como Argeu Guimarães. Críticos encontraram nele a influência de renascentistas italianos e de antigos mestres da pintura holandesa de gênero.

O realismo, o detalhamento naturalista e a precisão objetiva de suas pinturas, levaram alguns estudiosos a considerá-las antes como documentos científicos. Foram levados a isso também porque Eckhout representou suas figuras estáticas, em meio a cenários intencionalmente ricos em detalhes de plantas, frutos e animais - sua obra seria apenas informativa, mas sem emoção.

Análises mais recentes passaram a perceber toda a sensibilidade contida em suas naturezas-mortas que, além de mostrar um lindo visual, parecem transmitir uma emoção tão viva que sugere o tato, e até mesmo o perfume e o gosto das frutas tropicais. É um apelo ao prazer do alimento e à fecundidade da terra, uma ode à vida, liberada de qualquer sentido religioso, inserida nos cânones das naturezas-mortas holandesas do século 17. São obras para deleite dos sentidos, que exibem um virtuosismo renascentista, aliado a habilidosa concepção. Surge nelas o jogo entre a aparência e a realidade, para despertar no observador os prazeres da celebração da vida e da alegria de viver. Sente-se a influência da “maneira” italiana ligada à observação da natureza, que também estava presente nos primeiros pintores de flores holandeses. Eckhout dominou com requinte e maestria a arte da sugestão e da ilusão, utilizando um amplo leque de recursos técnicos, divertindo-se com a luz, a cor, a perspectiva e o plano, para levar-nos à satisfação com tanta fartura. Imagine-se o fascínio que sentia um habitante da Europa faminta daquele tempo perante uma natureza pródiga como a brasileira, isto sem esquecer que, para os europeus do século 17, frutas eram iguarias de luxo.

Também se interessou pelos indígenas, em especial os tapuias e os tupis, que representou em cenas de guerra, de “domesticação” e de antropofagia (a classificação “tapuia” foi empregada inicialmente em sentido amplo, abrangendo todas as tribos que não pertenciam aos tupis).

A colonização levou o índio a perder progressivamente sua identidade, que foi sendo substituída pelos traços de um ser colonizado. Assim, o tupi de Eckhout já apresenta elementos próprios à inserção colonial. Quanto ao tapuia, este sim, conserva seus atributos de guerreiro e canibal. Não esqueçamos que o interior nordestino, habitado pelas tribos tapuias, ainda permanecia muito isolado da colonização e hostil.

O artista mostra-nos um índio tupi domesticado, integrado ao sistema econômico da colônia - e o seu oposto, o guerreiro tapuia. O mais interessante destas pinturas são, provavelmente, as feições e os atributos corporais. Os retratos são executados com realismo e fidelidade, excluindo qualquer tipo de folclorização ou caricatura. O imaginário europeu era ávido de belos corpos e rostos formosos. Eckhout, porém, retrata figuras comuns que encontra em sua vida diária - nem as feições são sempre lindas, nem os corpos sempre torneados - embora seja também verdade que por vezes se rende ao artificialismo do “décor”, como quando mostra ferozes animais, símbolos de um tropicalismo selvagem e agressivo, numa cena de natureza primitiva “construída” para lá colocar seus indígenas.

Podemos recordar que, por vezes, os não-tupis juntaram-se aos holandeses para combater os portugueses e os brasileiros, e que os laços entre estes tapuias e os flamengos se haviam estreitado devido a interesses em comum. Entretanto, a variedade das imagens vai muito além da dicotomia entre selvagens e pacificados.

Eckhout concebeu a índia como um membro ativo na antropofagia, que leva para a aldeia partes do corpo dos guerreiros vencidos. Outras representações de artistas da época, que também estiveram no Nordeste, como Georg Marcgraf ou Zacharias Wagener, seguiram esta mesma temática da índia canibal e do guerreiro recém-devorado. Outras índias de Eckhout são representadas carregando cestas, cabaças, sugerindo o nomadismo dos tapuias e mostrando o papel da mulher encarregada do transporte de materiais.

Os casais pintados pelo artista, na verdade, sintetizam comportamentos indígenas variados. Além disto, com as frequentes representações de pessoas negras, ele ampliou seu repertório étnico. Não há aqui lugar para as mistificações artificiosas dos grandes pintores europeus seus contemporâneos, como Rembrandt ou Velásquez. Eckhout impõe o registro objetivo do que viu, relegando para segundo plano fantasias decorativas.

A presença do negro está intimamente ligada ao engenho de açúcar. Nestes temas, o legado do pintor inclui oito pinturas de avantajadas dimensões, onde figuram quatro casais de “tipos  êtnicos” das então chamadas Índias Ocidentais. Ao lado de índios e negros há também mamelucos e mulatos sendo, todavia, excluídos os portugueses e outros tipos europeus.

Esta documentação representa um panorama antropológico inédito, a respeito da mestiçagem das raças e da hibridização das culturas. Certamente, entre os artistas da corte da Nassau, foi ele quem compôs o mais amplo repertório de gêneros, combinando naturezas-mortas, retratos e paisagens, que ilustram de maneira prática o quadro econômico e social do território sob o domínio da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.

Os retratos contêm diversas referências alegóricas aos Quatro Continentes - geralmente representados como quatro casais. Por outro lado, a paisagem de fundo destas oito pinturas revela a fauna e a flora. É atribuído um significado, digamos econômico ou político, concretizado em emblemas simbólicos localizados nos cantos dos quadros. Como exemplos, poderíamos citar uma presa de marfim de elefante aos pés do negro africano, a mandioca no retrato do índio tupi ou a cana-de-açúcar ao lado do mulato.

Trata-se de uma visão científica, motivada pela curiosidade etnográfica. As figuras femininas são quase sempre representadas no desempenho de suas funções domésticas. Em seu trabalho Negra com criança são exibidos frutos variados, que reportam às ideias de colheita, transporte e comida. A criança é um símbolo que bem representa a função reprodutora da fêmea. O quadro, rico em alusões visuais, mostra também um cachimbo holandês de cerâmica branca e um chapéu asiático, que traduz uma alegoria aos Quatro Continentes.

Em Guerreiro negro, o personagem é um belo combatente fortemente armado, com sua vistosa espada e lança. Não é a figura de um escravo, mas de um nobre - aliás, escravos nem podiam carregar armas.

Em outro quadro, Mulato, o homem está armado com um arcabuz e uma adaga. Os mulatos, homens libertos por causa da sua porção de “sangue cristão” europeu, podiam portar armas se fosse para lutar ao lado dos holandeses. Vale assinalar neste quadro a presença da cana-de-açúcar e um mamoeiro, relações simbólicas com o mulato (no início do século 16 os portugueses haviam trazido a cana-de-açúcar da Ilha da Madeira, para onde a tinham levado no princípio do século anterior). Por outro lado, a complexa divisão de sexualidade do mamoeiro faz alusão à mistura racial.

Nestes retratos africanos o mar ocupa o lugar do horizonte, sugerindo o caminho que liga o Brasil à África.

AS TAPEÇARIAS DAS INDIAS
Tapeçaria O índio caçador
Tapeçaria O índio caçador

Em 1678, Maurício de Nassau, já de volta à Europa, ofereceu ao rei Luis XIV da França oito cartões com pinturas de Albert Eckhout, para que fossem copiadas nas manufaturas da corte, com o objetivo de, a partir delas, se fazerem tapeçarias. A resposta demorou a chegar e, entretanto, Nassau faleceu. A proposta foi depois levada adiante nas oficinas dos Gobelins (Paris) alcançando imenso sucesso entre os visitantes da corte.

Foram criadas duas versões das tapeçarias (Grandes e Pequenas Tapeçarias das Indias). Existem coleções incompletas em La Valette, no Palácio da Ordem de Malta, na Ilha do mesmo nome; e no Palácio do Arcebispo de Praga. No Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand encontram-se dois exemplares das tapeçarias, executados por volta de 1723: O Indio Caçador e O Elefante.

ALGUMAS OBRAS DE ALBERT ECKHOUT

A . Eckhout, Negra com criança
A . Eckhout, Negra com criança

A . Eckhout, Guerreiro negro
A . Eckhout, Guerreiro negro

A . Eckhout, Mulato
A . Eckhout, Mulato

A . Eckhout, Indio tapuia
A . Eckhout, Indio tapuia

A . Eckhout, Mulher tupi com criança
A . Eckhout, Mulher tupi com criança

A . Eckhout, India tapuia
A . Eckhout, India tapuia

A . Eckhout, Dansa dos tapuias
A . Eckhout, Dansa dos tapuias

A . Eckhout, Mameluca
A . Eckhout, Mameluca

A . Eckhout, Frutas brasileiras
A . Eckhout, Frutas brasileiras

A . Eckhout, Frutas brasileiras
A . Eckhout, Frutas brasileiras

A . Eckhout, Cocos
A . Eckhout, Cocos

Zacharias Wagener (1614-68)

Um alemão de Dresden, Zacharias Wagener, chegou ao Brasil em 1634, antes mesmo do Conde de Nassau, retornando à Europa em 1641. Sua contribuição à arte brasileira é limitada, mas original.

Pintor amador, fez sua carreira dentro da Companhia das Índias Ocidentais e Orientais. A sua coleção, com mais de cem aquarelas, está guardada no Museu de Dresden, Alemanha. Elas integravam o seu Thier-Buch (Livro dos Animais). São obras habilidosas, sobretudo se considerarmos que foram concebidas e executadas não por um pintor profissional, mas por um amador. A inspiração seguiu a tradição religiosa:

“...Persuadi-me então que não era justo somente me extasiar na contemplação dessas magníficas criaturas de Deus, mas também meditar seriamente sobre a onipotência divina...”

É um verdadeiro registro da fauna e da flora brasileiras, mas há igualmente reproduzidos seres humanos, como o desenho de uma índia tapuia canibal, e um mercado de escravos negros amontoados.

Sua técnica é simples: observa o natural, o que lhe permite a objetividade e o detalhamento relativo a movimento, ambientação, cor, brilho e textura. Como acontece, por exemplo, na representação de guerreiros negros ou índios com as pontas das flechas voltadas para o solo. Eckhout, que abordamos anteriormente, por vezes sacrificou a objetividade naturalista a uma escolha estética, representando as armas apontadas para cima ou para trás. Certamente  Wagener se relacionou com outros artistas estrangeiros que então viviam no Recife, como Marcgraf. Os dois moraram na mesma pequena urbe durante três anos e podem ser apontadas semelhanças entre seus trabalhos.

As legendas das aquarelas do Livro dos Animais parecem ter servido de base para trabalhos de outros artistas. No caso deste aquarelista, sua obra é mais científica do que artística, faltando-lhe sensibilidade e talento. Entretanto, realizou alguns trabalhos de reduzido mérito quando retratou figuras étnicas, paisagens e construções da época.

ALGUMAS OBRAS DE ZACHARIAS WAGENER

Z. Wagener, Tamanduá
Z. Wagener, Tamanduá

Z. Wagener, Carangueijo
Z. Wagener, Carangueijo

Z. Wagener, Insetos
Z. Wagener, Insetos

 

Georg Marcgraf (1610-44)

Naturalista alemão, chegou ao Brasil em 1638. Desenvolveu trabalho como auxiliar do holandês Willem Pies, aqui realizando inúmeros estudos de cartografia. Os dois escreveram uma obra importante, Historia Naturalis Brasiliae, onde se pode estudar uma abrangente classificação de mais de setecentas espécies de fauna e flora, registros etnográficos sobre os habitantes e seus costumes, textos e descrições astronômicas de planetas e estrelas do hemisfério sul, distâncias geométricas do globo e de longitudes. Infelizmente, esta última parte de sua obra se perdeu quase completamente.

Os trabalhos de Marcgraf não cativam o amante da arte, porque carecem de paixão e talento, mas sua obra é um estudo extraordinário da nossa (como a chamaríamos hoje) diversidade ambiental.

 

ALGUMAS OBRAS DE GEORG MARCGRAF

G. Marcgraf, Capa de Historia Naturalis Brasiliae
G. Marcgraf, Capa de Historia Naturalis Brasiliae

G. Marcgraf, Prefeitura de Pernambuco
G. Marcgraf, Prefeitura de Pernambuco

G. Marcgraf, Carta da Paraíba
G. Marcgraf, Carta da Paraíba

 

Gillis Peeters (1612-53) 
Bonaventura Peeters (1614-52)
Abraham Willaerts (c. 1603-1699)

Os irmãos Peeters eram artistas de talento apurado, mestres em marinhas e paisagens, mas infelizmente nos chegaram poucas obras deles. Quanto ao primeiro, acredita-se que tenha aqui realizado esboços que depois, na Europa, foram passados para as telas, por ele e pelo seu irmão Bonaventura; quanto a este, talvez nunca tenha passado pelo Brasil.

Gillis pintou Vista do Recife com o seu porto, uma panorâmica espontânea, de grande mestria, mostrando uma esquadra naval e o assentamento das fortificações holandesas. Revela apurada técnica de composição - como a colocação de um braço de terra em diagonal, o que dá leveza, movimento e perspectiva ao conjunto. A presença de ruínas e personagens no primeiro plano são uma herança do padrão europeu.

O mesmo artista é autor de O Forte dos Reis Magos no Rio Grande do Norte, que expõe fantástica dramaticidade através de magistral jogo de sombras. Aqui, quem sobressai é a natureza indomável.

De seu irmão Bonaventura podem ser destacados Navio Holandês ao Largo da Costa Brasileira; Navio de Guerra Holandês Chegando às Índias Orientais (datado de 1648); e Índios Banhando-se em uma Cachoeira. Devem ser obras pintadas a partir de desenhos de Gillis. Os críticos respeitam a limpidez e qualidade de suas telas.

A.  Willaerts, nascido e falecido em Utrecht, era filho do pintor Adam Willaerts, com quem estudou pintura, antes de se tornar membro da Associação (Guilda) de pintores, em 1624. Em Paris recebeu lições de Simon Vouet e fez parte do séquito de Maurício de Nassau em Pernambuco, entre 1638 e 1644. Após sua passagem pelo Brasil esteve em Nápoles e Roma, em 1569 – 60.

 

ALGUMAS OBRAS DE GILLIS PEETERS

Gillis Peeters, O Forte dos Reis Magos, 1637-1650
Gillis Peeters, O Forte dos Reis Magos, 1637-1650

Gillis Peeters, Vista do Recife, 1639
Gillis Peeters, Vista do Recife, 1639

ALGUMAS OBRAS DE BONAVENTURA PEETERS

Bonaventura Peeters, Batalha Naval, 1648
Bonaventura Peeters, Batalha Naval, 1648

Bonaventura Peeters, Tempestade no mar, 1632
Bonaventura Peeters, Tempestade no mar, 1632

Bonaventura Peeters, Cena da costa no sul, 1652
Bonaventura Peeters, Cena da costa no sul, 1652

ALGUMAS OBRAS DE ABRAHAM WILLAERTS

A. Willaerts, Um armador e sua família, 1650
A. Willaerts, Um armador e sua família, 1650

A. Willaerts, Batalha naval, sem data
A. Willaerts, Batalha naval, sem data

 

BIBLIOGRAFIA SUCINTA
(Livros e Internet)
FONTES DE ESTUDO IMPRESSAS
FONTES ORIGINAIS

Baerle (Barlaeus), Caspas van, Rerum per octennium in Brasiliae et alibi gestarum historia (História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil), Ex Typographeio, Amsterdã, 1647.

Barleus não esteve no Brasil, mas recebeu as informações de fontes contemporâneas fidedignas. Teve como objetivo glorificar o Conde de Nassau (Johann Moritz Von NassauSiegen).  A edição brasileira: tradução de Cláudio Brandão, Editora Universidade de São Paulo / Livraria Itatiaia, São Paulo / Belo Horizonte, 1974.

Disponível em:
http://www.brasiliana.usp.br/bbd/search?&fq=dc.contributor.author
%3ABaerle%2C%5C+Caspar%5C+van%2C%5C+1584%5C-1648

_____

Laet, Johannes de, Historie ofte Jaerlijck Verhael van de Verrichtingen der Geoctroyeerde Westlindische Compagnie zedert haer begin tot het eijnde van't jaer. 1636 (História ou Narrativa anual das operações da Companhia das Índias Ocidentais desde sua fundação até o fim do ano de 1636), Leyde, 1644.

Laet (1581-1649) nasceu em Antuérpia, Holanda, e foi um geógrafo nomeado diretor da Companhia das Indias. Escreveu uma História do Novo Mundo elogiada pelos pesquisadores, tendo sido o primeiro responsável pela impressão de mapas fidedignos da América do Norte. Ajudou a divulgar as obras de Piso e Marcgraf, adiante mencionadas.

_____

Montanus, Arnoldus, De Nieuwe en Onbekende Weereld (O Novo e Desconhecido Mundo), Jacob Meurs, Amsterdã, 1671.

Propõe-se descrever ilhas, cidades, fortes, montanhas, casas, fauna e flora, religiões e costumes, acontecimentos milagrosos e guerras das américas recentemente descobertas.

Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/De_Nieuwe_en_Onbekende_WeereldAmsterdã, 1671

____

Nieuhof, Johannes, Gedenkweerdige Brasiliaense Zee-em Lant Reise (Memorial de uma viagem em terra e mar pelo Brasil), Weduwe van Jacob van Meurs, Amsterdã, 1682. O autor chegou ao Brasil em 1640, na qualidade de funcionário da Companhia das Indias. Embrenhou-se pelo interior, na região entre o Rio São Francisco e o Maranhão, mas estudou especialmente as cercanias de Recife. Em 1649 saiu do Brasil, quando os holandeses perderam a segunda Batalha de Guararapes, continuando ao serviço da Companhia Holandesa das Indias Orientais (VOC).

Disponível em: http://archive.org/details/johannieuhofsged00nieu

____

Estas obras, de observações gerais, completam-se com os escritos científicos de - Willem Piso, de Leiden, médico particular do Conde de Nassau. Escreveu quatro livros de “medicina brasiliense”; e de Georg Marcgraf, astrônomo alemão que fazia parte do séquito do Conde, que estudou a astronomia a partir do observatório montado em Pernambuco pelos holandeses.

Nota: Jan de Laet reuniu os resultados das investigações destes dois em um livro volumoso e ilustrado, Historia Naturalis Brasiliae ( publicado pela primeira vez em latim), Elsevier, Amsterdã, 1648. O livro foi editado pela Companhia Editora Nacional, São Paulo, em 1942 e 1948, ambas as edições com prefácio de Afonso E. Taunay.

Existem ainda numerosos folhetos contemporâneos dispersos, de origem holandesa, com informações fragmentadas. Em grande parte acham-se estes guardados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, na Biblioteca de Évora (Portugal), na Biblioteca Real de Haia e no Museu Britânico, de Londres.

FONTES SECUNDÁRIAS

Em 1853, Pieter Marinus Netscher, um jovem militar com pendores de historiador, publicou Les Hollandais au Brésil, trabalho clássico, que foi a base de muitos trabalhos sobre o tema.

Pela parte da historiografia portuguesa há, via de regra, grande animosidade contra a instalação dos holandeses ao Brasil, vista como uma “intromissão”. Uma das diatribes mais hostis foi divulgada no livro O Valeroso Lucideno e Triunpho da Liberdade,uma penosa leitura, da autoria do padre Manoel Calado, publicado em 1643, enaltecendo o suposto herói João Fernandes Vieira em sua luta contra os invasores e “suas desumanas crueldades.” O padre relata destruição de igrejas, profanações, roubos, massacres, violações, atos cometidos com a ajuda do índios tapuias, vendo apenas horrores e pecados do lado dos holandeses. Obviamente, os investigadores brasileiros posteriores viram aqui muito ódio e sectarismo e pouca História.

Disponível em:
http://www.brasiliana.com.br/obras/os-holandeses-no-brasil-noticia-historica-dos-paises-baixos-e-do-brasil-no-seculo-xvii/

___

- Wätjen, Hermann, O Domínio Colonial Hollandez no Brasil, Um capítulo da história colonial do século XVII, tradução de Pedro Celso Uchôa Cavalcanti, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1938. Título original Das Holländische kolonialreich in Brasilien, ed. P. Andreas Perthes A. C. Gatha, 1921. O autor passou muitos anos dedicando-se ao tema e consultou milhares de documentos originais.

Disponível em www.brasiliana.com.br/obras/o-dominio-colonial-holandes-no-brasil

___

O historiador Franz Adolph Von Varnhagen, brasileiro filho de emigrante alemão, em sua História Geral do Brasil, que procurou repor a verdade histórica através de pesquisas científicas na Europa e no Brasil. Em 1871, o mesmo Varnaghen  publicou obras especialmente dedicada ao tema, História das lutas com os holandeses. Junto com o livro de Pieter Marinus Netscher, a obra de Varnhagen, representa uma base sólida para a compreensão do período da dominação holandesa. A obra de Varnhagen teve a virtude de despertar o interesse dos historiadores brasileiros para o tema, muitos deles colaboradores da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Alguns autores, como Oliveira Lima (Pernambuco, seu desenvolvimento histórico, surgido em 1895) utilizaram estas fontes científicas e aprofundaram o conhecimento da época.

-Guimarães, Argeu, Na Holanda, com Frans Post, Revista do Inst. Hist. e Geográfico Brasileiro, abr/jun, 1957

-Mello, José Antonio Gonçalves de, Tempo dos flamengos, prefácio de Gilberto Freyre, Topbooks, Rio de Janeiro, 1987

-Revista do Inst. Histórico e Geográfico Brasileiro, Testamento político do conde João Maurício de Nassau, n. 58, Rio, 1895, ps 223-236

-Teixeira Leite, José Roberto, A pintura no Brasil holandês, Rio de Janeiro, 1967

- Valladares, Clarival do Prado e Mello Filho, Luiz Emygidio de, Albert Eckhout, a presença da Holanda no Brasil, 1989

- Whitehead, Peter James Palmer, Um retrato do Brasil holandês no século XVII, 1989

 

FONTES DE ESTUDO NA INTERNET (somente em português)

www.holandeses.pedagogia.vilabol.uol.com.br/holandeses
www.infoescola.com/historia/invasoes-holandeses-no-brasil
pt.wikipedia.org/wiki/Invasoes_holandesas_no_Brasil
www.infopedia.pt/Sholandeses-no-brasil
www.mundovestibular.com.br/articles/1146/I/INVASAO-HOLANDESA-NO-BRASIL/Paacuteginal.
www.suapesquisa.com/invasaoholandesa/
www.coladaweb.com/historia-do-brasil/invasao-e-ocupacao-holandesa
www.historianet.com.br/conteudo/DEFAULT.asp?codigo=591